Antes, quando eu julgava ser imortal
bastava-me essa noção
e produzia tudo em quanto
Hoje, tendo adquirido a mortalidade
adquiri também
raízes na inoperância
domingo, 15 de janeiro de 2012
Abehar
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Céu Nublado
Havia ali, na rua logo abaixo, uma flor que brotava no asfalto.
Eu, teimoso em ver encanto no trivial inesperado, achava isso fantástico. Me postava ali, sentado na calçada, a admirar o espetáculo de uma flor ao sol, ilha em meio ao escuro mar do asfalto. Suas pétalas eram brancas com minúsculos pontinhos escuros.
Apertava os olhos e sorria.
Sentia-se de longe o perfume ímpio do seu coração imenso e bravo. Se houvesse uma cor nesse aroma, seria lilás, pura e intensa de sua impassividade ao amor.
Por tanto apreço à flor, preocupava-me dos carros que iam e vinham.
Ela não tinha essa apreensão, afinal, escolhera brotar ali e ali abrir os braços ao sol. Os carros eram de outro mundo. Na minha vista, ali havia apenas uma flor. Desaparecem carros, casas, pessoas, cidade. É o meio de tudo. É o espetáculo de apenas ser.
Preocupação tola, a minha. Mais que isso, infantil - infantil como eu me sentia ali sentado na calçada assistindo a uma flor banhar-se em sol. É desses sentimentos de rendição que não se percebe chegar. Deixo-me persuadir pela suave e inocente figura de pétalas alvas em meio ao negro do mundo.
Asfalto quente e escuro, emana ondas de calor que me confundem a vista em certas ocasiões. Perco-me, confundo-me, assalto-me da coerência; desnorteio-me sem a vista real da flor branca de pontinhos escuros. O problema é o asfalto. O problema são os carros. O problema são os outros. Quisera eu parar todos os carros, resfriar o asfalto. Convive-se e aprende-se. Mais que isso, sente-se. Flor feita apenas do sentir.
Na separação, de volta à minha casa, contemplo apenas o céu na rua onde moro: nublou, e nada mais pode me trazer uma lembrança tão forte quanto essas nuvens sob o sol que banha o sorriso minha flor do aslfato.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
A noite é inteira
América percebeu que precisava trocar a escova de dentes. Notava uma leve aspereza em alguns dentes ao toque da língua. Guardou como uma nota mental passar amanhã no mercado para comprar uma escova. Enquanto encarava o próprio rosto no espelho, maquiado com a espuma do creme dental nos lábios, pensou nos demais afazeres. Organizar os dvd's nas devidas capas, trazer as roupas limpas para o guarda-roupa, levar as sujas para a área de serviço, pesquisar na internet alguma forma alternativa para disfarçar os fios brancos que apareciam no cabelo. Talvez reorganizasse a posição do sofá na sala.
Na noite alta, era seu hábito manter-se ocupada. A noite na janela estava escura, ainda sem estrelas. O silêncio era o mesmo. A única diferença era que Ele não estava mais lá.
Às tantas da madrugada, achou lugar em que sentia-se disposta. Agora lia um tanto, mas não prestava atenção realmente ao texto. Os pensamentos disputavam sua atenção com o livro que tinha em mãos; sempre havia algo para fazer, algo para organizar. Queria sempre ter alguma tarefa a cumprir.
Foi a forma que encontrou para por ordem na própria vida. Não sabia isso de claro, mas era a diretriz que comandava tudo o que fazia. Pensava no mundo, pensava no tempo, pensava na idade, e sobretudo, pensava nas pessoas.
Havia um pouco tempo, talvez alguns meses, que sentia-se distanciar das pessoas, ao passo que queria ao mesmo tempo entendê-las cada vez mais. Tem lá sua lógica. Assista tudo de cima, veja o rato correr o labirinto. Uma aranha na janela, um anjo na piscina. Assista as pessoas irem e virem nas calçadas. Talvez isso tenha acontecido por ter perdido o emprego, todo esse desapego. Justo ela, que lidava com pessoas o tempo inteiro em sua rotina de recepcionista. Talvez tenha sido a solidão sólida que sentiu quando Ele se foi. Parecia ter contagiado-se com o pensar descontrolado que Ele tinha. Mas no caso de América, os pensamentos tinham o único propósito de manter longe o fato de que Ele não estava mais ali. Isso também não sabia de claro.
Largou o livro no colo e deixou a cabeça pender ao recosto do sofá. No tempo em que analisava o acúmulo de insetos no lustre da sala, achava estranho a necessidade de que as pessoas têm em se agarrar a outrem. Dela própria depender tanto dele, justo agora que Ele era apenas ausência.
Sentiu o dedo latejar novamente. Queimou-o enquanto esquentava o café do dia anterior; preferiu mantê-lo sem band-aid, sem pomadas, sem manteiga. Cedo ou tarde tudo voltará ao normal. Isso trouxe-a de volta à realidade. Ainda que tivesse o dedo inoperante, resolveu levantar-se do sofá e puxá-lo para mais próximo da janela. Mesmo depois de ter passado a noite em claro carregando livros e varrendo pisos, queria cansar-se mais. Assim o descanso é honesto.
Posicionou o sofá abaixo da janela e vislumbrou a noite sendo aniquilada pelo dia nascente. A noite que Ele a deu. "América, meu amado continente". Foi o que havia escrito numa das poucas cartas que que fez. Animou-se discretamente com a lembrança, mas não o suficiente para que algum sorriso surgisse. Não em seu rosto; na alma talvez. Por conseguinte, lamentou e pensou: "A noite é inteira". Às vezes sentia uma certa raiva em estar bagunçando mais ainda o apartamento, mitigando a ordem de seu espaço a cada dia que passava com suas efêmeras organizações. Raiva dele por entrar tantas vezes em sua mente sem pedir permissão.
O dia estava alto e não havia mais tempo para pensar ou pensar em algo mais a fazer. Era hora de sair em busca de outro emprego, comprar a escova de dentes nova; mas antes disso precisava alimentar seu animal: um dragão pálido ufava e ansiava por comida em sua pequena caixa na cozinha.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Versos para a bailarina ladra
Bailarina furtiva
Invadiu-me casa
na ponta dos pés
Trouxe o hálito da noite
E folhas para o tapete
Com um sorriso cerrado
Rodopiou porta adentro
Silenciosamente
Passeou por dentre a louçaria
Trilhou o carpete
No topo das ponteiras
Fouetté
Os grilos cantavam a valsa
A noite brilhava ao palco
Bailarina furtiva
Sorriu para o reflexo na tv
Saudou as poltronas
E girava a cada vez
Que sentia o silêncio
Dos porta-retratos
Madrugada
Num descuido qualquer
Não entreviu o aplauso
Do expectador insone
No alarme teu, bailarina
A sopeira foi ao chão
Destruiu o silêncio e a porcelana
E o espetáculo foi ao fim
Fugiu perdida, trôpega
Deixando-me na questão
Se era sonho ou divina realidade
Imagine, uma ladra dançante
Os cacos no chão
Meu coração na mão
Pedem que ela volte
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Ataque Cardíaco
Dia desses, sem mais nem menos, Sabirá me chega alterado, disparando palavras sem o mínimo cabimento. Estava chateadíssimo, irritado com algo que no momento não pude discernir a natureza. De tão nervoso que estava, embargava a voz de modo que eu não pude entender nada; sua ânsia ultrapassava a capacidade de algum tipo de comunicação comigo.
Entretanto, notei que Sabirá realmente estava agindo de forma estranha por esses dias, mas confesso que não me importei muito com o caso. E posteriormente fui entender que justamente foi o descaso o estopim para falatório. A indignação chegou a tal ponto que pensei que, já que não pôde se expressar verbalmente, Sabirá fosse me machucar fisicamente. Felizmente não foi o caso; o Sabirá enfim conseguiu conectar as palavras e me disse:
- Parou, parou. Acabou. É sério. Que droga, tu não dá a mínima atenção pra cá, pra onde eu tô, pras coisas que eu faço, ah, não; falo e falo e tu não ouve! Tá certo, eu sei que existem pessoas desligadas, mas isso já é demais. Como se o que eu te falasse fosse te levar a algo humilhante, ou danoso, ou qualquer coisa que não seja boa; mas não é, não é! O que eu te digo é única e exclusivamente pro teu bem, nada mais que isso. E tu ignorando. Diz que estou errado, e sei lá quê mais, essas tuas coisas sem cabimento. Não sei o que eu te fiz.
- Sabirá – interrompi o discurso tentando ser o menos incisivo possível –, vamos lá: respira. O que foi?
- É isso, não ouviu? Acho que não, né.... não sei porque ainda pergunto. Aliás, não sei por que ainda tento te explicar alguma coisa.
- Escuta, eu já percebi que tu estás chateado por causa da minha falta de atenção contigo, e tudo o mais - peço desculpas até -, mas para e pensa o que acabou de acontecer aqui: tu acha que isso tudo tem muito sentido?
- Que sentido?! Lá me vens tu e a danada dessa razão! Não pare e pense, apenas pare de pensar!
- Eu não consigo! Só em tu falares isso, já me faz pensar!
- Então fica aí pensando, eu já vou indo.
E foi mesmo. Desbocado, esse sujeito. Sai falando o que vem à telha, depois estranha porque às vezes não considero muito o que ele diz. Vez ou outra tenho meus desentendimentos com ele, mas sempre o considerei muito. O pior é que, apesar de ter feito esse discurso todo contra a razão, ele tem alguma. Tenho que parar com isso de pensar demais. Devia ter dito isso pra ele, mas acho que não é a melhor hora. Melhor deixar o ânimo de Sabirá esfriar um pouco, e então vou pensar num jeito de voltar ao assunto com ele. Esses ataques do Sabirá me fazem ficar um tanto desconcertado. Sempre fico pensando no quanto preciso dele.
domingo, 7 de dezembro de 2008
Sobre as aves-do-paraíso
Conta um pai à filha:
- Quando eu era pequeno, do teu tamanho, papai uma vez me levou a uma feira que tinha ali perto do campinho, e que hoje não existe mais. Tinha venda de tudo: pedras vindas com os trovões, bichos que se alimentavam de vento, tecidos trançados a partir de gemas preciosas, remédios contra a saudade, quadros vivos, vagalumes para se colocar no cabelo, e tantas outras coisas. E claro, tinha o usual, temperos, galinhas, roupas, peixes, e tudo o mais.
- Eu andava fascinado com tudo aquilo - às vezes quando passo pelo campinho, lembro desse dia. Fazia um certo calor, mas não me incomodava, e eu sei que o calor também não te incomoda, deves ter puxado isso de mim. Havia também muito barulho de gente gritando, animais cacarejando, outras crianças correndo, outras carregando as compras para as madames, enfim, a feira pulsava no apogeu de cada dia.
- Mas sim, aonde quero chegar: teve um momento em que eu, distraído com uma caixa cheia de humaninhos, perdi da mão do pai. E enquanto fui procurando por ele pelos corredores da feira, e tinha tanta coisa a se prestar atenção, que de súbito, em minha frente, revoou um bando de pássaros de cores todas em cada um. Fiquei um tanto estarrecido do susto e da beleza, e acompanhei-as com o olhar até sumirem em vários pontos diferentes. Voavam algumas apressadas, outras apenas planavam com poucas batidas de asas, até sumirem dentre as árvores que tem até hoje perto do campinho.
- Surgiu então um sujeito meio gordo ao meu lado que disse que aquelas eram aves-do-paraíso. Pensei que tinham esse nome por serem tão bonitas, mas ele explicou porque elas tinham esse nome. O inicío da explicação foi uma pergunta: 'reparou nas patas delas?'. Respondi que não, que eu só tive tempo de ver quantas cores cada uma tinha. Ele explicou contando que elas não tinham pata alguma, os únicos membros eram as asas. Já imaginando minha dúvida, continuou a explicação. Disse que por isso elas eram do paraíso, por nunca pousarem. Voam sempre, e que talvez fosse até aves divinas, tendo contatos apenas passageiros com a terra. Continuou explicando que elas colocam os ovos sobre as costas das outras durante o vôo, e assim servem de ninho umas às outras até que o pequeno pássaro tome conta de si.
- 'E por que elas estão aqui?' perguntei. Meu pai chegara há pouco, e, já na intenção de repreender-me por ter solto da mão dele, desistiu da idéia (ou esqueceu) ao ouvir o que o homem gordo contava sobre as aves-do-paraíso. O homem finalizou a história contando que aquele bando aparece por onde quer que ele vá, sempre ao meio-dia, há pouco mais de vinte anos. Tendo dito isso, papai tomou minha mão novamente e despediu-se do homem. Fomos comprar vinagreira em uma outra barraca, e de lá, rumo de casa.
- Durante o caminho, meu pai falou que essa foi a história mais besta que ele já tinha ouvido, e que história por história, prefere a da raposa, que ele me contava sempre - e que eu já te contei também, mocinha.
- Pois é, essa é a história que eu tinha pra contar hoje. Amanhã te conto o que realmente são as aves-do-paraíso.
E beijou em boa-noite a filha. Ao sair da margem da cama, o pai teve a intenção controversa de não contar que as aves-do-paraíso são na verdade pessoas tão iguais a ela, a filha, que nascem do céu e no céu, que são alheias ao mundo, que trazem todas as cores em si, e que até levam outras pessoas todos os dias ao paraíso. Eis o que ele tinha sobre as aves-do-paraíso.
Mas no dia seguinte planejava inventar outra história para filha, porque saber das aves-do-paraíso é mais sonhativo quando se tem os pés na terra.
sábado, 11 de outubro de 2008
Doença e cura (II)
2.
(poderia ter quarenta anos, poderia ter cinquenta, poderia ser católico, poderia ser ateu, poderia ter dois filhos, poderia ser filho único, poderia ser corretor, poderia ser prefeito, poderia morar na periferia, poderia trabalhar no centro, poderia ir embora, poderia pedir pra que ninguém fosse, poderia, poderia. mas não podia)
Alguns dias depois deparei com um sujeito fitando a imagem de Nossa Senhora que ficava no corredor que desemboca no balcão de admissão de pacientes. Reconheci como sendo o filho de uma senhora que também aguardava ser operada naquela semana.
Armava as mãos na cintura e repousava olhar perdido nos olhos da estatueta. Quando os pensamentos tiravam-lhe os pés do chão, o olhar estancava numa única direção indefinida no sentido à imagem; quando era reconectado à realidade, passava a analisar cada detalhe da vestimenta da santa, e a observar as cartas que se acumulavam ao pé de Nossa Senhora. Talvez imaginasse o que haveria nelas. Além disso, havia algumas fotos três por quatro anexadas às mensagens.
Agora dependia da estatueta sorridente de Nossa Senhora para enganar o medo de perder a mãe. Procurar quase desesperadamente um detalhe novo a cada segundo, isso mantém a mente ocupada. Religião, não, ele não era religioso. Suplicar por amor, rebaixar-se ante alguém ou algo, isso é para os submissos por natureza, não ele.
Mas aqueles quarenta centímetros de gesso instigavam-no a não pensar assim. A mãe dormindo no leito e ele ali, no corredor, conversando sozinho. Precisava de ajuda - não queria, mas precisava. Querer, poder, precisar. Nada disso é controlável. Não sabia se era pior depender de pessoas, deuses, ou do gesso. Não sabia por quê. Não sabia de nada, aliás. E se a mãe fosse embora? A mãe vai embora? É isso, acabou? Tudo isso pra acabar assim? Nossa Senhora, me diga.
Teu manto parece mais azul do que em cinco minutos atrás.